terça-feira, 16 de julho de 2013

Precisamos caminhar, avançar na dimensão que é própria do Evangelho, afirma o secretário nacional da CRB, Fr. Moacyr Casagrande, ofmcap.

De 15 a 19 de julho é realizada a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB Nacional) reunindo cerca de 600 religiosos e religiosas em Brasília, na Escola Paroquial Santo Antônio, para a Assembleia Geral da entidade. Na ocasião, será realizada a eleição da nova presidência que atuará de 2013 a 2016 em prol da Vida Religiosa do Brasil. Durante a Assembleia biblistas, psicólogos, teólogos e missiólogos ajudarão no processo eletivo com algumas reflexões sobre a Vida Religiosa. O Secretário Nacional da CRB, biblista, membro da Equipe Bíblica da entidade, frei Moacir Casagrande, OFMcap, ressalta a importância do tema e do lema da Assembleia. 
“Nós escolhemos este tema depois de uma longa discussão entre todas as equipes de reflexão da CRB e também com as Diretorias Regionais e chegamos à conclusão que há um desafio que sempre volta. Não é a primeira vez que a identidade entra no tema de uma Assembleia Geral Eletiva. A identidade da Vida Religiosa é um processo que precisa ser trabalhado constantemente”.  Em se tratando de uma assembleia eletiva, frei Moacir explica que o tema quer despertar para a consciência da missão da coordenação da Vida Religiosa no Brasil. “Nós precisamos caminhar, avançar na dimensão que é própria do evangelho, que é própria aos desafios que o mundo constantemente nos apresenta, especialmente hoje, que há certo pessimismo em relação ao futuro, há uma ideia de que tudo acaba amanhã ou hoje mesmo, e não é assim”.
Durante a Assembleia os religiosos terão a oportunidade de refletir sobre “sinais que a Vida Religiosa não reconheceu ao longo do caminho”, com base no lema. Nesta dimensão, a insistência é pela humanização das relações. “O mundo caminha para uma maquinização e nós queremos uma humanização que, não somente nós queremos, mas que todos querem; estamos sendo substituídos pelas máquinas e nos tornando absolutamente dependentes das máquinas e não sabemos, com isso, ser humanos. Partimos para o relativismo, para o mecanicismo e esquecemos que há uma dimensão que é anterior e será posterior a essa e que essa dimensão passa”, enfatiza frei Moacir. O secretário Nacional da CRB, frei Moacir Casagrande acredita que a Vida Religiosa está vivendo desafios. “Um primeiro elemento é a inquietude. Existe muita gente inquieta na Vida Religiosa em relação ao presente e ao futuro. Outro aspecto é o questionamento em relação aos processos formativos da Vida Consagrada, porque as pessoas, que entram para a Vida Religiosa, vêm buscar outras dimensões e nós, às vezes as oferecemos, outras vezes, não”.

JMJ

A missionária Luciane Facundes Ferreira, 30 anos, vai presenciar um momento que poucos poderão ver. A macapaense vai participar da missa fechada do Papa Francisco com bispos em 27 de julho na Catedral de São Sebastião, um dos eventos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro. Ela é uma dos milhares de peregrinos que seguirão do Ceará para a Jornada, de 23 a 28 de julho.
O convite para Luciane participar da missa chegou por e-mail no último dia 10. “Como chegou por e-mail, resolvi checar e liguei para a organização. Eles confirmaram o convite”, lembra. Para garantir a vaga, a missionária teve de enviar um questionário detalhado. Do Ceará, apenas Luciane e o seminarista Franco Michel Galdino, 24 anos, foram escolhidos para ocupar algumas das cadeiras vagas na celebração.
Luciene está em missão há dois anos em Fortaleza. “Fiquei surpresa. Estou vendo com grande alegria e responsabilidade. Alegria por estar unida à nossa Igreja e responsabilidade porque, de certa forma, estarei representando a Comunidade Shalom nesse momento”, conta.
Luciane e o grupo de 50 jovens viajam no dia 22 de julho para o Rio de Janeiro. Além da ansiedade para a missa com o papa e os bispos, a missionária aguarda com o grupo que coordena os atos centrais da JMJ, como a chegada do papa e a via sacra em Copacabana. “O grande momento para nós será a vigília”, afirma.
A vigília com o papa Francisco também será realizada no dia 27 de julho. “Assim que terminar a missa, seguirei em peregrinação durante três horas com os outros”. Ela afirma que vai percorrer a pé 13 km até o Campus Fidei, em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Preparação
Cerca de 2.000 jovens de Fortaleza devem participar da JMJ. As preparações dos grupos de peregrinos vão das dicas de viagem até os momentos de espiritualidade. “Nos reunimos frequentemente para prepará-los. O objetivo não é simplesmente um momento de lazer, estamos indo como peregrinos unidos com toda a Igreja. É importante prepará-los para viverem esse momento de fé”, diz.
A missionária já esteve em missões pelo interior do Ceará, Rio de Janeiro, Sergipe e São Paulo. Mesmo já tendo participado da Jornada Mundial da Juventude de 2011, em Madrid, para Luciane, o encontro de 2013 será especial. “Nós sabemos que o Brasil é o país mais católico do mundo, será uma festa muito bela”, afirma.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Mataram mais um irmão

Por conta do assassinato de um líder indígena da aldeia Ororubá, no interior do Pará, o bispo de Marabá, dom Vital Corbelini e o Cimi divulgaram uma nota na manhã desta sexta-feira, 12 de julho. No texto, questionam "Quantas vidas ainda terão de sucumbir à saga dos invasores, para que os órgãos competentes tenham boa vontade de resolver o problema? E quem vai reparar essa perda que a família da vitima e a comunidade Atikum está sofrendo, com o bárbaro assassinato de um dos seus membros?".
A seguir, a íntegra do texto:
Diocese de Marabá – CIMI -PA
LIDERANÇA ATIKUM DA ALDEIA ORORUBÁ É ASSASSINADO POR INVASORES DO SEU TERRITÓRIO

A Diocese de Marabá manifesta a indignação frente ao assassinato da liderança Atikum da aldeia Ororubá no Sul do Pará. Nós pedimos ao Senhor a justiça que se realize pelas pessoas humanas. Nós não podemos permanecer acomodados diante da situação que os povos indígenas estão vivendo e muitas vezes sofrem assassinatos. As suas terras são invadidas com derramamento de sangue.
Wilson Ambrósio da Silva era um dos representantes do Povo Atikum do município de Itupiranga (PA). Ele integrava a comitiva indígena do estado que esteve em Brasília no dia 19 de abril passado para somar força às mobilizações do Abril Indígena e denunciar a ocorrência de invasão e ilícito ambiental na área ocupada por suas famílias, dentro de um Projeto de Assentamento para Reforma Agrária, do Incra, na região.
Os índios chegaram a protocolar um documento junto aos representantes da Procuradoria Geral da República, por ocasião da realização de uma audiência pública na sede do órgão, denunciando toda a situação vivenciada pela comunidade e pedindo ajuda urgente, pois o clima entre indígenas e invasores, já estava tenso.
Em Marabá, as lideranças Atikum encaminharam novamente o mesmo ofício, via email, para a Funai e para um representante do Incra, em Brasilia. Participaram também de uma audiência com o MPF, na cidade de Marabá, para tratar da questão, sem que quase nada fosse feito para agilizar a retirada dos invasores da área.
Depois de um ano entre idas e vindas das lideranças Atikum à Funai, ao Incra, à Policia Federal e ao MPF em Marabá, cobrando providências e agilidade no processo de retirada dos invasores da área, no dia 09 de Julho de 2013, o que era temido pela comunidade e o que vinha sendo denunciado já há algum tempo  aconteceu na aldeia Ororubá.
O indígena Wilson Ambrósio da Silva, de 43 anos, foi encontrado morto por volta das 16 h, com dois tiros no corpo, sendo um na cabeça e outro no tórax. Foram membros do seu grupo que o encontraram na reserva ocupada por famílias indígenas.
Segundo a comunidade, ele havia saído pela manhã para a serra (área disputada pelos invasores e o indígenas), para olhar o gado da comunidade que estava pastando naquele local e, não voltou mais.
Os indígenas acusam a família do principal invasor da área, conhecido como “Bil”, de ter praticado o crime. Já fazia 11 meses que a área cedida pelo Incra às famílias Atikum havia sido invadida pelo grupo desse sujeito que de uma hora pra outra chegou na região dizendo que o próprio Incra em Marabá o havia assentado na área.
Segundo o documento que foi entregue ao MPF, em Brasília, os indígenas dizem que “todas as atas das reuniões que foram feitas tanto na FUNAI, no INCRA quanto no MPF em Marabá, através de visitas, apontam uma resolução aparentemente simples para resolver o nosso caso (por favor, solicite esses documentos à FUNAI, ao INCRA e ao MPF em Marabá), mas até o momento o que estamos vendo e sentindo é que estamos sendo enrolados e enganados com falsas promessas. Enquanto isso, a única área de floresta na região está sendo devastada pelos invasores, com enormes prejuízos para a nossa comunidade. O INCRA, por outro lado, é sabedor de que nos fez essa doação há dez anos e os demais órgãos citados nesse documento também são sabedores de que fizemos desta área uma reserva ambiental e cultural para as futuras gerações do nosso povo e o mínimo de qualidade de vida para todos. E agora, nos deparamos com a atitude do próprio INCRA que diz ter assentado outras famílias não índias na área, sem nos consultar, desrespeitando acordos feitos anteriormente entre a FUNAI e órgão agrário”.
E finalizavam o documento entregue ao MPF, à Funai e ao Incra, em Brasília, pedindo, uma intervenção do MPF no caso e outras ações, tais como “que o INCRA retire imediatamente os invasores da área, antes que eles destruam toda a cobertura florestal da serra, causando-nos ainda mais danos; cobre da FUNAI a regularização das áreas cedidas pelo INCRA e solicite do MPF em Marabá um acompanhamento mais incisivo do caso”.
Porém, o que ocorreu mesmo foi aquilo que já vinha sendo alertado pelos índios às autoridades da região há algum tempo. Ou seja, o assassinato de um dos membros da comunidade Atikum da Aldeia Ororubá na luta pela terra, o que deixou um povo todo abalado, com medo e entristecido.
Segundo informações dos próprios indígenas, a Funai e a Policia Federal já estão na área apurando o caso, mas a comunidade está questionando  quem agora vai resolver o caso da invasão da terra das 18 famílias indígenas que dependem deste pedaço de chão para sobreviver? Quantas vidas ainda terão de sucumbir à saga dos invasores, para que os órgãos competentes tenham boa vontade de resolver o problema? E quem vai reparar essa perda que a família da vitima e a comunidade Atikum está sofrendo, com o bárbaro assassinato de um dos seus membros?
Esperamos que a justiça seja feita, que este assassinato de mais uma liderança indígena no Brasil não fique impune, que os responsáveis sejam presos e processados e que os invasores da área da comunidade Atikum da Aldeia Ororubá sejam retirados imediatamente do território do povo.

O Senhor Jesus nos ajude a viver o amor a Deus e ao próximo.    

Marabá (PA),  10 de julho de 2013.

Dom Vital Corbellini
Bispo Diocesano de Marabá – PA

Conselho Indigenista Missionário - Equipe de Marabá

terça-feira, 9 de julho de 2013

Um grito da terra


 













Monitoramento do Desmatamento em Áreas Protegidas no Pará

Monitoramento do Desmatamento em Áreas Protegidas no Pará
Sanae Hayashi*, Carlos Souza Jr. & Kátia Pereira

O Pará possui 55% do seu território designado como Áreas Protegidas (Terras Indígenas e Unidades de Conservação). Essas áreas estão, em parte, expostas às ameaças de desmatamento e à exploração madeireira, pois a sua proteção efetiva é incipiente e a aplicação da lei de crimes ambientais é lenta. Isso ocorre por causa da demora na detecção dos desmatamentos e da falta de provas materiais para caracterizar esse tipo de crime ambiental. Neste O Estado da Amazônia, apresentamos os resultados da parceria entre o Imazon e o Ministério Público Federal (MPF) no Pará de agosto de 2007 a dezembro de 2008. O objetivo dessa parceria é tornar as ações de combate ao desmatamento ilegal nas Áreas Protegidas mais ágeis. Utilizamos o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) desenvolvido pelo Imazon para detectar em tempo quase real os desmatamentos ilegais nessas áreas. O MPF, por sua vez, usa essa informação para cobrar dos órgãos ambientais a verificação em campo do desmatamento e acompanhar o processo de responsabilização dos crimes ambientais em Áreas Protegidas.

Áreas Protegidas no Pará
A criação das Áreas Protegidas na região amazônica, além de ser um dos mecanismos de preservação e conservação dos recursos naturais, também é considerada uma estratégia de ordenamento territorial. Em dezembro de 2008, as Áreas Protegidas no Pará representavam 55% (684 mil quilômetros quadrados) do seu território (Figura 3). Desse total, 284 mil quilômetros quadrados (41%) eram Terras Indígenas, 195 mil quilômetros quadrados (29%) eram Unidades de Conservação federais e 205 mil quilômetros quadrados (30%) eram Unidades de Conservação estaduais. Cerca de um terço da área total protegida foi estabelecido em 2006, com destaque para cerca de 150 mil quilômetros quadrados criados pelo Governo do Pará com apoio técnico do Imazon.
Apesar dos esforços para a criação das Áreas Protegidas no Estado, muitas dessas unidades ainda não foram implantadas. Por exemplo, de 20 Unidades de Conservação analisadas pela Conservação Internacional em 2007 no Pará[1], a maioria (60%) não possuía Plano de Manejo[2] elaborado e aprovado pelo órgão gestor. Além disso, a efetividade na aplicação da lei de crimes ambientais que pune os casos de desmatamentos ilegais nas Áreas Protegidas[3] é baixa. Isso decorre tanto da demora na detecção dos desmatamentos ilegais e da falta de provas materiais para caracterizar esse tipo de crime ambiental como da dificuldade em localizar os infra-tores. Portanto, a redução do desmatamento nas Áreas Protegidas e o aumento da chance de punição efetiva dos crimes ambientais nessas áreas dependem de ações estratégicas e ágeis de monitoramento, fiscalização, controle e responsabilização.

Monitoramento Mensal do Desmatamento
O monitoramento mensal do desmatamento nas Áreas Protegidas[4] é realizado pelo SAD, sistema que utiliza imagens do sensor Modis (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer) com capacidade de detectar automaticamente incrementos de desmatamento maiores que 6,25 hectares mensalmente. Após a detecção, as áreas (polígonos) de desmatamento são repassadas para o ImazonGeo (http://www.imazongeo.org.br) – banco de dados geográficos da Amazônia voltado para internet – onde são organizados em mapas interativos, gráficos e relatórios. No ImazonGeo, os polígonos de desmatamento nas Áreas Protegidas são auditados e validados por meio de imagens de satélites mais detalhadas[5]. Esse procedimento é necessário para a confirmação inequívoca do desmatamento ilegal, a qual servirá de base para a instauração de processos administrativos e judiciais. Em seguida, os polígonos de desmatamento validados são incorporados a representações[6] que são encaminhadas ao MPF (Figura 1). Em cada representação estão resumidas as informações básicas de cada Área Protegida, bem como dados do desmatamento e a imagem de satélite utilizada na validação[7]. Além disso, gera-se uma figura das Áreas Protegidas com a localização do desmatamento e imagens de satélite de vários anos para mostrar a sua evolução (Figura 2). Todas as representações são divulgadas no ImazonGeo.

Desmatamento nas Áreas Protegidas
Entre agosto de 2007 a dezembro de 2008, 389 quilômetros quadrados foram desmatados em Áreas Protegidas no Pará. Desses, 182 quilômetros quadrados foram enviados para o MPF em forma de representações (Figura 3). Isso significou 145 representações (uma para cada polígono de desmatamento) distribuídas em 21 Áreas Protegidas federais, das quais 9 eram Terras Indígenas, outras 9 eram Unidades de Conservação de Uso Sustentável e 3 formavam Unidades de Conservação de Proteção Integral. A maioria do desmatamento concentrou-se na região da “Terra do Meio” e nas proximidades da BR-163, áreas de expansão de fronteira de desmatamento (Figura 3). A partir de 2008 houve redução no desmatamento em Áreas Protegidas, ocasionada em grande parte pelas medidas governamentais adotadas no início desse ano contra o desmatamento na Amazônia[8]. No Pará houve uma redução de 72% do desmatamento nas Áreas Protegidas entre os anos de 2007 e 2008, quando o desmatamento atingiu 574 quilômetros quadrados e 162 quilômetros quadrados, respectivamente. Essa redução ocorreu em todos os grupos de Áreas Protegidas, principalmente em Unidades de Conservação de Proteção Integral, onde a queda foi de 85%.

Áreas Protegidas com mais Representações
As dez Áreas Protegidas com maior número de representações de desmatamento encaminhadas para o MPF (agosto de 2007 a dezembro de 2008) foram: Florestas Nacionais (Flonas), Áreas de Proteção Ambiental e Terras Indígenas. A Flona do Jamanxim (oeste do Pará) foi a Área Protegida com maior número de representações de desmatamento (n=51), bem como a maior área desmatada (58 quilômetros quadrados) detectada pelo SAD (Figura 3). Entre as Terras Indígenas, a Xikrim do Cateté apresentou a maior área desmatada (37 quilômetros quadrados), seguida da terra Kayapó com 10 representações de desmatamento e um desmatamento total de 29 quilômetros quadrados no mesmo período. ( será publicado depois a continuidade do artigo).

Especial: Mulheres marcadas para morrer

Nas diversas placas de sinalização ao longo das rodovias que ligam os municípios do sudeste e do sul do Pará, raras são as que não ostentam marcas de balas. Atirar nas placas pode ser o insuitado passatempo de quem trafega por aquelas estradas, sem maiores consequências. Mas as marcas também sinalizam muito do espírito que sempre marcou a colonização daquela parte do estado, pivô de conflitos agrários, assassinatos de lideranças rurais e número um em índices de desmatamento e trabalho escravo.

Leia mais no site da Pública:
Maria Joel da Costa herdou a luta e as ameaças de morte
Laísa luta pela terra e pela memória da irmã
Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), ocorreram no estado do Pará, entre 1964 e 2010, 914 assassinatos de trabalhadores rurais, religiosos e advogados por questões de terra. Desse total, 654 ocorreram no sul e sudeste do Pará. “Muitos dos trabalhadores rurais assassinados, não conhecemos os rostos e nem sabemos os seus nomes. Em muitos desses casos a polícia negou o registro das denúncias formalizadas por sindicalistas e familiares das vítimas, e negou também o resgate dos corpos onde foram assassinados”, diz o advogado da CPT em Marabá José Batista Afonso.

A CPT divulgou no início do ano uma lista com o nome de 38 pessoas ameaçadas de morte no sul e sudeste do Pará por causa de sua luta pela posse da terra. Dez são mulheres.
Enquanto espera pelo julgamento do caso do assassinato do marido, Maria Joel segue trabalhando sob ameaças (Foto: …
Num dossiê que esmiuça a violência no sul e sudeste do Pará, a CPT avalia a violência que  vitimou centenas de trabalhadores rurais, dirigentes sindicais, religiosos, advogados e parlamentares que lutam pela terra e pela reforma agrária, remonta principalmente o governo militar que, no início da década de 1970, começou a investir na ocupação da Amazônia. O sul e sudeste do estado do Pará, região de expressiva concentração de riquezas minerais e naturais, foi talvez onde esse processo se efetivou de maneira mais contundente.

Para explorar as riquezas, o governo construiu estradas, como a Transamazônica, a BR-222, a BR-158, mas construiu também hidrelétricas, como Tucuruí, e estimulou e financiou a implantação de grandes projetos para explorar as riquezas ali existentes, como o Projeto Ferro Carajás. “Ao mesmo tempo incentivou a vinda de grandes empresas e pecuaristas do Centro-Sul do Brasil para investir na criação de gado bovino. Não só concedeu terras, mas créditos subsidiados pela política de incentivos fiscais da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). Esses grupos econômicos, especialmente aqueles que investiram na implantação da pecuária extensiva passaram a expulsar, de forma muito violenta, os povos indígenas e diversos pequenos agricultores que há muito tempo ocupavam da região”, enfatiza  o dossiê da CPT.

A novidade da violência atual é que as mulheres estão cada vez mais na linha de tiro, alvo de ameaças. Algumas convivem com essa marca há mais de uma década. Outras começaram a sentir mais recentemente o peso da sina de estarem marcadas para morrer.

Em comum, essas mulheres carregam a consciência da luta que travam; sentem medo, modificaram hábitos, convivem com a incerteza cotidiana. Houve quem decidisse se afastar da luta sindical, com medo das ameaças cada vez mais constantes. Outras permanecem, sabendo ser esse o destino a seguir.

A professora Laísa Sampaio dos Santos é irmã da Extrativista Maria do Espírito Santo da Silva, esposa de …
Uma das poucas que conseguiram alguma atenção nacional para o seu périplo foi Laísa Santos Sampaio. Irmã da extrativista Maria do Espírito Santo, assassinada em Nova Ipixuna, a 580 quilômetros de Belém  em 2011, Laísa é o “alvo da vez” no município. Ela e o marido, José Maria Gomes Sampaio, o Zé Rondon, estão sendo ameaçados de morte desde o assassinato de Maria e José Cláudio Ribeiro da Silva. Laísa já não dorme tranquilamente e não pode sair de casa sem acompanhamento. A rotina pessoal mudou, desorganizando toda sua família, a relação com os filhos e o trato da lavoura e do extrativismo dentro do seu lote de terra. A Comissão Pastoral da Terra acredita que as ameaças têm sido feitas por pessoas que provavelmente fizeram parte do consórcio de proprietários de terras, madeireiros e carvoeiros que assassinou José e Maria. As ameaças de morte foram registradas na Delegacia de Conflitos Agrários do Sudeste do Pará (DECA). Pouco mudou.

“Não saio mais desacompanhada”, diz Regina Maria Gonçalves Chaves. Regina é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de Eldorado dos Carajás. No dia 15 de junho de 2012 um grupo de fazendeiros invadiu a sede do Sindicato e a ameaçou diretamente. “Deixaram um recado: estariam com grupos armados à espera de qualquer tentativa de ocupação por parte dos movimentos sociais”, diz ela. Dias depois, pessoas estranhas foram vistas rondando a sede do sindicato e à procura de Regina na casa dos familiares dela.

Em Breu Branco, próximo ao município de Tucuruí, a 480 quilômetros da capital, Graciete Souza Machado convive com uma bala alojada a apenas dois centímetros da coluna vertebral. O alvo era o pai, Francisco Alves de Macedo, líder comunitário que defendia posseiros que ocuparam a fazenda Castanheira. Francisco Alves foi morto por pistoleiros “Eu sou ameaçada de morte desde 2010. Não temos liberdade para sair de casa com nossas crianças. Vivemos totalmente inseguros e com muito medo, pois a qualquer momento, como aconteceu com o meu pai, pode acontecer comigo. Tenho muito medo”, diz ela.

Mudam as personagens, mas as histórias são semelhantes.

“As mulheres se tornaram lideranças que acabaram tomando à frente da luta, muitas vezes são responsáveis pelo sustento da família”, diz a advogada da Comissão Pastoral da Terra, Vânia Maria Santos, 29 anos. Ela atribui a continuidade dos padrões de violência à impunidade. “Da ameaça à concretização é pouca coisa”, diz ela.

Nos assentamentos, acampamentos, periferias dos municípios, nas entidades sindicais, uma dezena de mulheres segue sua vida, à espera do assassino, cumprindo pena forçada. É a história

quarta-feira, 3 de julho de 2013